Você também está pensando em trocar funcionários por IA? Zuckerberg demitiu 8 mil para financiar a dele, e a IA não chegou.
O plano tinha codinome e meta de cortar times em até 60%. A segunda onda de demissões foi cancelada porque a tecnologia atrasou. Antes de repetir isso na sua empresa, leia o que a medição mostrou.
Preste atenção na ordem dos acontecimentos, porque é nela que a história inteira se explica.
Em maio de 2026, a Meta demitiu cerca de 10% da força de trabalho global, algo perto de 8 mil pessoas.
Em julho, dois meses depois, Zuckerberg admitiu publicamente que a tecnologia de agentes de IA estava avançando bem mais devagar do que ele esperava.
Primeiro as pessoas saíram. Depois veio a informação de que a substituta não estava pronta.
A investigação da Reuters, publicada em 26 de agosto, revelou o plano por trás disso. Ele tinha até codinome: Projeto de Transformação Organizacional, ou Projeto OT, desenhado para que agentes de IA assumissem funções de milhares de funcionários.
Segundo a agência, executivos chegaram a trabalhar com cenários de cortar equipes em até 60%.
Como uma empresa que emprega alguns dos melhores engenheiros do mundo apostou 8 mil empregos numa tecnologia que a própria equipe ainda não tinha entregue?
O que o plano previa, e o que aconteceu de verdade
A promessa era de um “manual nativo de IA”: times menores, agentes fazendo o trabalho repetitivo, custo estrutural derrubado.
O que aconteceu, segundo a apuração da Reuters e a cobertura subsequente:
A meta de cortar até 60% se mostrou irrealista rapidamente.
A segunda onda de demissões, planejada para depois de maio, foi cancelada.
Funcionários passaram a “apagar incêndios” por causa de um aumento grande de código gerado por IA, que estava provocando incidentes técnicos e de segurança.
Vinte e seis funcionários entraram com processo alegando que uma plataforma interna de IA foi usada para selecionar quem seria demitido, atingindo de forma desproporcional pessoas com deficiência.
A empresa tentou instalar software de monitoramento nos computadores dos funcionários para treinar IA com base no que eles digitavam e clicavam, e levou uma reação furiosa.
O moral desabou, com funcionários xingando em fóruns internos, enquanto a liderança oferecia hackathons e lanches melhores.
Sobre o processo, vale a marcação honesta: são alegações, ainda não julgadas, e a Meta não foi condenada por isso.
E a empresa deu sua versão à Reuters: disse que não seguiu adiante com todos os cenários do exercício e que nunca presumiu que seguiria.
É uma defesa razoável. Empresa grande modela cenário extremo o tempo todo, e modelar não é executar.
Só que 8 mil pessoas foram demitidas de verdade.
O detalhe financeiro que muda o sentido da notícia
Aqui está o número que reposiciona tudo.
O próprio Zuckerberg atribuiu os cortes à necessidade de liberar recursos para o aumento de despesas de capital. E a Meta elevou a previsão de gastos de 2026 para até 145 bilhões de dólares, mesmo com o fluxo de caixa em queda.
Leia devagar.
Não foi “a IA substituiu os funcionários”. Foi “os funcionários foram cortados para pagar a construção da IA”.
São coisas completamente diferentes, e a confusão entre as duas é conveniente demais para ser acidental.
No primeiro caso, existe uma tecnologia funcionando que torna o trabalho desnecessário. É doloroso, mas é a história econômica de sempre.
No segundo, existe uma aposta de capital financiada por demissão, com a tecnologia prometida chegando depois. Isso não é automação. É alocação de orçamento com narrativa de futuro.
Os 8 mil não foram substituídos por máquinas. Eles foram convertidos em data center.
O problema nunca foi o agente de IA. Foi acreditar na sensação de velocidade
Agora o dado externo que explica por que esse tipo de plano falha, e ele é bonito de tão desconfortável.
Em julho de 2025, a METR, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos, publicou um ensaio controlado e randomizado com desenvolvedores experientes de projetos de código aberto maduros. Foram 16 profissionais e 246 tarefas reais, sorteadas entre “pode usar IA” e “não pode usar IA”.
Os três números:
Antes de começar, os desenvolvedores estimaram que a IA os deixaria 24% mais rápidos.
Depois de terminar, avaliaram que tinham ficado 20% mais rápidos.
A medição objetiva mostrou que ficaram 19% mais lentos.
Não é que a IA seja inútil. É que a percepção de ganho e o ganho real apontaram para lados opostos, com quase 40 pontos de diferença entre o sentido e o medido.
E aqui está a conexão com a Meta.
Se você é executivo e olha volume de código produzido, número de tarefas fechadas, velocidade aparente de entrega, você vê aceleração. Se você olha retrabalho, incidente de segurança e tempo até o sistema ficar estável de novo, você vê outra coisa.
A Reuters reporta exatamente esse segundo cenário dentro da Meta: aumento de código gerado por IA e gente apagando incêndio.
A empresa não errou por acreditar em IA. Errou por confiar num indicador que mede produção e não mede consequência.
É o erro mais antigo da gestão, com roupa nova.
Usar IA para escolher quem demitir é a única parte disso que é inaceitável
O resto da história é decisão empresarial ruim, e decisão empresarial ruim é legítima. Executivo pode errar, é para isso que existe conselho e acionista.
Mas a alegação do processo dos 26 funcionários é de outra natureza.
Selecionar pessoas para demissão com base em pontuação gerada por sistema é, em todas as estruturas de governança de IA que existem no mundo, o exemplo de manual de aplicação de alto risco. Está lá no regulamento europeu, está no PL brasileiro, está nas recomendações da OCDE.
O motivo é simples: emprego é acesso a renda, a plano de saúde, a moradia. Errar aqui não gera experiência ruim de usuário, gera perda material irreversível.
E a acusação específica, de impacto desproporcional sobre pessoas com deficiência, descreve o problema clássico desse tipo de modelo. Ninguém precisa programar discriminação. Basta treinar num histórico onde quem tirou licença médica, trabalhou menos horas ou teve avaliação afetada por afastamento aparece como “menor desempenho”.
O sistema não odeia ninguém. Ele reproduz o que a empresa já fazia, com eficiência e sem constrangimento.
Repito que são alegações não julgadas. Mas o desenho técnico do risco é conhecido há anos, e uma empresa desse porte sabe disso.
No Brasil, esse plano teria batido numa parede logo no começo
O recorte brasileiro aqui é forte, e é uma das poucas vezes em que a nossa legislação chega antes.
Primeiro, demissão em massa. O Supremo Tribunal Federal fixou tese no Tema 638, em 2022: a intervenção sindical prévia é exigência procedimental imprescindível para a dispensa em massa de trabalhadores.
Atenção ao que isso significa e ao que não significa. Não é autorização do sindicato, e não exige acordo coletivo assinado. Mas exige que o sindicato seja envolvido antes, e vale para dispensas coletivas ocorridas depois de setembro de 2022.
Ou seja: no Brasil, cortar 10% do quadro de uma vez não é uma decisão que se toma numa reunião de diretoria e se comunica por e-mail na manhã seguinte.
Segundo, discriminação. A Lei 9.029, de 1995, proíbe práticas discriminatórias na relação de trabalho, e a Justiça do Trabalho tem histórico de reverter dispensa quando o critério aparenta ser discriminatório.
Terceiro, e aqui está o buraco: a LGPD, no artigo 20, garante ao titular o direito de solicitar revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado que afetem seus interesses.
O texto original previa que essa revisão fosse feita por pessoa natural. Esse trecho foi vetado.
Traduzindo: você tem direito de pedir revisão, e a lei não garante que quem vai revisar seja gente.
É uma proteção com o meio de baixo faltando. E é exatamente o meio que importaria num caso como o da Meta.
Spoiler do Fim do Mundo™
O que essa história revela não é que agentes de IA não funcionam. Eles funcionam, para algumas coisas, e vão funcionar para mais coisas. O erro do Projeto OT foi de cronograma, não de conceito.
O problema é que erro de cronograma, aqui, tem nome e CPF.
Quando uma empresa se antecipa a uma tecnologia e erra a data, ela reverte a decisão de produto, cancela a segunda onda de demissões, ajusta o guidance e segue. O executivo que aprovou continua no cargo.
As 8 mil pessoas que saíram em maio não têm botão de reverter.
E aqui está o detalhe mais revelador de todos: a Meta cancelou a segunda leva porque a IA não chegou. Ou seja, a régua nunca foi desempenho de ninguém. Foi disponibilidade da substituta.
Quem ficou não ficou por mérito. Ficou porque o software atrasou.
Essa frase deveria estar na primeira página de qualquer manual de gestão de 2026, e não está em nenhum.
O ciclo vai se repetir, porque o incentivo continua idêntico: anunciar corte de custo hoje sobe a ação hoje, e a entrega da tecnologia é cobrada depois, se for cobrada.
A única coisa que muda esse cálculo é obrigar a empresa a mostrar a conta antes. Auditoria do critério de demissão, comprovação do ganho de produtividade, e revisão humana obrigatória quando a decisão nasce de um sistema.
Nada disso é revolucionário. É burocracia.
E burocracia, quando bem feita, é o que separa uma decisão errada de uma tragédia distribuída entre 8 mil famílias.
Três perguntas:
Se a segunda onda foi cancelada porque a tecnologia atrasou, com base em que exatamente a primeira foi executada?
Sua empresa consegue provar, com medição e não com sensação, que a IA aumentou a produtividade dela?
E a brasileira: você aceitaria que o pedido de revisão de uma demissão decidida por algoritmo fosse analisado por outro algoritmo?
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