Hollywood encontrou seus novos vilões. Estranhamente, são os homens que também estão financiando o futuro do cinema.
Zuckerberg aparece em The Social Reckoning, Elon Musk ganha o documentário Musk, Sam Altman vira personagem de Artificial, quatro magnatas tecnológicos observam o mundo desmoronar de uma mansão nas montanhas em Mountainhead e Tom Cruise interpreta em Digger outro tipo de oligarca convencido de que pode salvar a humanidade. Tecnologia virou um dos grandes assuntos de Hollywood justamente quando empresas de tecnologia estão entrando cada vez mais profundamente no dinheiro, na distribuição, na infraestrutura e até nas ferramentas usadas para produzir cinema. Talvez seja essa a verdadeira história escondida atrás dessa nova geração de vilões.
Existe alguma coisa acontecendo em Hollywood que parece grande demais para ser tratada apenas como coincidência de calendário, porque quando filmes completamente diferentes começam a escolher repetidamente o mesmo tipo de personagem para representar arrogância, risco, poder e ausência de controle, normalmente existe uma mudança cultural acontecendo antes mesmo que alguém tenha encontrado um nome para ela.
Mark Zuckerberg está de volta ao cinema em The Social Reckoning, continuação temática de The Social Network, agora interpretado por Jeremy Strong. Elon Musk virou objeto de uma investigação de quase quatro horas em Musk, documentário dirigido por Alex Gibney. Sam Altman será interpretado por Andrew Garfield em Artificial, de Luca Guadagnino, sobre a crise de 2023 na OpenAI, quando o conselho demitiu Altman e poucos dias depois assistiu ao seu retorno ao comando. Em Mountainhead, Jesse Armstrong, criador de Succession, coloca quatro magnatas da tecnologia dentro de uma mansão nas montanhas enquanto uma crise global, alimentada pelas próprias tecnologias que eles ajudaram a criar, explode no mundo lá embaixo. E em Digger, Alejandro G. Iñárritu coloca Tom Cruise no papel de Digger Rockwell, um magnata do petróleo descrito como um dos homens mais poderosos do mundo, tentando provar que consegue salvar a humanidade depois de participar da criação do desastre que agora precisa resolver.
Esses filmes não contam a mesma história, e seria simplista colocá-los todos na categoria “Hollywood contra bilionários”. O que eles compartilham é algo mais interessante: todos estão orbitando uma nova ansiedade cultural sobre indivíduos privados que acumularam dinheiro, tecnologia, infraestrutura e influência suficientes para acreditar que possuem não apenas capacidade, mas também legitimidade para interferir em problemas que antes pertenciam principalmente ao território dos governos.
Hollywood parece ter encontrado novamente um personagem capaz de representar aquilo que uma sociedade começou a suspeitar que está ficando poderoso demais.
Desta vez, ele não precisa usar terno.
Cem anos depois de Metropolis, o dono da máquina voltou a assustar
O Financial Times percebeu essa transformação e fez uma conexão particularmente inteligente com Metropolis, de Fritz Lang, que completa cem anos, porque o clássico de 1927 já imaginava uma sociedade reorganizada pela tecnologia, pela desigualdade e pela concentração de poder industrial, perguntando essencialmente o que acontece quando aqueles que controlam as máquinas passam também a controlar a arquitetura dentro da qual o restante da sociedade precisa viver.
Cem anos depois, a tecnologia mudou radicalmente, mas a pergunta política continua desconfortavelmente parecida.
A diferença é que Hollywood já não precisa inventar um industrial misterioso observando a cidade do alto de uma torre para representar concentração tecnológica. Existem empresas privadas controlando plataformas utilizadas por bilhões de pessoas, redes de satélites, infraestrutura de cloud computing, algoritmos que organizam informação política, modelos de inteligência artificial capazes de produzir texto, imagem, áudio e vídeo, além de data centers cuja expansão começa a interferir em energia, água, território e infraestrutura pública.
O antigo dono da fábrica não desapareceu. Ele apenas trocou a fábrica pela plataforma, pelo data center, pelo modelo de inteligência artificial e pela infraestrutura digital que o restante da economia começou a utilizar.
É essa mudança que o cinema parece estar tentando metabolizar.
Zuckerberg e The Social Reckoning: quando o outsider finalmente vira Golias
Talvez The Social Reckoning mostre essa transformação cultural melhor do que qualquer outro filme porque permite comparar dois momentos completamente diferentes da percepção pública de Silicon Valley.
Quando The Social Network apareceu em 2010, Zuckerberg ainda podia ser representado como o programador brilhante, socialmente estranho, ressentido e obsessivo que começava num dormitório de Harvard e terminava controlando uma das plataformas mais importantes da internet. Era perfeitamente possível enxergá-lo como vilão, anti-herói ou gênio desagradável, mas ainda havia naquele personagem alguma coisa da velha mitologia do outsider tecnológico, o sujeito que entra no sistema porque sabe programar melhor do que as pessoas que já estavam dentro dele.
The Social Reckoning encontra um Zuckerberg completamente diferente porque a história acompanha Frances Haugen e o jornalista Jeff Horwitz na exposição dos documentos internos do Facebook. A estrutura narrativa deixa de ser a do jovem tentando conquistar poder e passa a ser a de pessoas tentando confrontar alguém que já o acumulou em escala extraordinária.
Essa diferença explica boa parte da transformação cultural de Silicon Valley nos últimos quinze anos. O fundador que originalmente parecia desafiar instituições tornou-se instituição, a startup virou infraestrutura e o garoto de moletom que simbolizava rebeldia tecnológica passou a ocupar exatamente a posição que histórias de David contra Golias precisam preencher.
Agora Zuckerberg é Golias.
Elon Musk e Musk: quando a realidade começa a parecer um roteiro exagerado
Alex Gibney encontra outro tipo de personagem em Musk, porque Elon Musk acumulou uma combinação de negócios, influência e infraestrutura tão incomum que qualquer tentativa de descrevê-la inevitavelmente começa a soar cinematográfica.
Seu universo empresarial atravessa veículos elétricos, foguetes, satélites, inteligência artificial, comunicação global e redes sociais, enquanto sua presença pública também passou a atravessar política, geopolítica e debates sobre liberdade de expressão, regulamentação e poder empresarial.
Se um roteirista tivesse apresentado décadas atrás um personagem bilionário que controlasse foguetes reutilizáveis, uma constelação gigantesca de satélites, uma plataforma global de comunicação, empresas de inteligência artificial e acesso direto aos centros do poder político, algum executivo provavelmente teria sugerido reduzir um pouco a quantidade de clichês.
A realidade resolveu esse problema para Hollywood.
Isso não significa que Elon Musk seja literalmente um vilão cinematográfico, mas significa que a arquitetura de poder construída ao redor dele começou a se parecer com aquilo que nossa cultura aprendeu durante décadas a reconhecer como poder privado excepcionalmente concentrado.
É exatamente por isso que ele funciona tão bem na tela.
Sam Altman e Artificial: quando Hollywood tenta filmar o poder tecnológico e esbarra no próprio poder tecnológico
O caso de Artificial talvez seja ainda mais revelador porque a história fora do filme acabou reproduzindo parte da tensão que o próprio filme pretende investigar.
Luca Guadagnino dramatiza a crise de novembro de 2023 na OpenAI, quando Sam Altman foi abruptamente demitido pelo conselho e retornou poucos dias depois, mais poderoso do que antes. Andrew Garfield interpreta Altman, Yura Borisov interpreta Ilya Sutskever e Ike Barinholtz aparece como Elon Musk, transformando uma disputa corporativa extraordinariamente incomum numa história sobre quem realmente consegue controlar uma organização responsável pelo desenvolvimento de uma tecnologia que seus próprios criadores descrevem como potencialmente transformadora para a sociedade.
Só que existe uma segunda história acontecendo fora da tela.
Artificial havia sido desenvolvido dentro do ecossistema da Amazon MGM, enquanto a Amazon posteriormente aprofundou enormemente sua relação econômica com a OpenAI. Depois disso, Amazon deixou a distribuição do projeto e a Neon acabou assumindo o filme.
Não existe evidência pública suficiente para afirmar que OpenAI tenha pressionado Amazon a abandonar o filme ou que o relacionamento comercial tenha causado diretamente aquela decisão, e transformar coincidência, proximidade econômica e potencial conflito de interesses em causalidade seria inventar uma história que os fatos disponíveis não sustentam.
Mas nem precisamos de conspiração para perceber o problema estrutural.
Quando uma empresa pode simultaneamente participar de Hollywood, fornecer infraestrutura tecnológica, investir dezenas de bilhões de dólares em inteligência artificial e estabelecer relações comerciais com a companhia cujo CEO está sendo retratado num filme potencialmente desconfortável, a velha separação entre “indústria cinematográfica” e “indústria tecnológica” começa a ficar muito menos clara.
Essa talvez seja uma das histórias mais importantes por trás de Artificial: não apenas aquilo que o filme diz sobre Sam Altman, mas aquilo que sua própria trajetória industrial revela sobre o mundo no qual esse tipo de filme precisa ser produzido.
Mountainhead talvez seja o filme que melhor explica a ansiedade atual
Se existe uma imagem cinematográfica capaz de resumir toda essa transformação, provavelmente está em Mountainhead.
Jesse Armstrong, criador de Succession, coloca quatro magnatas da tecnologia numa mansão luxuosa cercada por montanhas enquanto o mundo do lado de fora enfrenta uma crise alimentada, em parte, pelas tecnologias que esses próprios homens ajudaram a colocar em circulação. Deepfakes, inteligência artificial, plataformas digitais, desinformação, violência e instabilidade começam a atravessar a sociedade enquanto aqueles que possuem dinheiro e tecnologia suficientes para se proteger das consequências observam tudo a partir de um ambiente praticamente isolado.
O filme funciona porque transforma em sátira uma pergunta que deixou de ser completamente absurda: o que acontece quando um grupo extremamente pequeno de indivíduos privados possui tecnologia, capital e informação suficientes para tomar decisões cujas consequências começam a se aproximar da escala tradicionalmente associada a governos?
A mansão nas montanhas funciona quase como uma metáfora excessivamente perfeita. Lá embaixo existe uma sociedade vivendo as consequências da tecnologia; lá em cima estão aqueles que possuem capital, informação e capacidade suficientes para discutir aquilo que deveria ser feito com essa sociedade.
É uma espécie de Davos ficcional no qual a supervisão democrática ficou presa na estrada antes de chegar à montanha.
E o detalhe mais interessante é que os personagens de Mountainhead não precisam ser cópias exatas de Zuckerberg, Musk, Altman, Peter Thiel ou qualquer outro bilionário conhecido. O público reconhece imediatamente o universo que está sendo satirizado porque o tech billionaire já deixou de ser apenas uma profissão e virou arquétipo cultural.
Quando uma sátira não precisa mais explicar a referência, significa que a referência já entrou no imaginário coletivo.
Digger mostra que o problema é maior do que Silicon Valley
Digger amplia essa discussão porque Tom Cruise não interpreta um CEO de tecnologia, mas Digger Rockwell, um magnata do petróleo extremamente poderoso que tenta demonstrar que consegue salvar a humanidade depois de suas próprias ações contribuírem para produzir uma catástrofe.
Essa diferença é importante porque mostra que talvez a nova obsessão de Hollywood não seja simplesmente transformar executivos tecnológicos em vilões. O personagem maior é o oligarca privado convencido de que riqueza, inteligência, influência e capacidade tecnológica lhe concedem legitimidade suficiente para resolver problemas de escala civilizacional, mesmo quando parte desses problemas surgiu justamente do sistema econômico que produziu sua fortuna e seu poder.
Em Digger, essa tensão passa pelo petróleo, pelo capitalismo e pela catástrofe ambiental; em Mountainhead, aparece através de plataformas digitais, inteligência artificial, deepfakes e bilionários tecnológicos; em Artificial, através da disputa pelo controle da inteligência artificial; em The Social Reckoning, através do poder das redes sociais; e em Musk, através da concentração real de infraestrutura, empresas e influência ao redor de uma única personalidade.
Quando olhamos para esses filmes em conjunto, o medo cultural parece menos relacionado à riqueza isoladamente e muito mais relacionado a uma pergunta sobre poder privado produzindo consequências públicas sem que esteja claro quem possui autoridade suficiente para estabelecer seus limites.
Por que tecnologia virou novamente o assunto da vez?
Porque estamos provavelmente entrando numa nova onda de inovação comparável, em impacto cultural, a momentos anteriores nos quais uma tecnologia reorganizou aquilo que a sociedade considerava possível.
A era nuclear produziu monstros, mutações, cidades destruídas e histórias sobre cientistas que haviam ultrapassado limites que não compreendiam completamente. A corrida espacial produziu décadas de ficção científica sobre exploração, computadores, inteligência extraterrestre e o futuro da humanidade. A revolução digital nos entregou hackers, realidade virtual, vigilância e filmes como The Matrix. A internet produziu uma geração inteira de histórias sobre plataformas, startups, redes sociais e empreendedores, enquanto The Social Network transformou a criação de uma empresa de software em drama shakespeariano.
Agora chegamos à inteligência artificial, só que existe uma diferença fundamental em relação a muitas dessas ondas anteriores: IA não está mudando apenas aquilo sobre o qual Hollywood faz filmes.
Ela está entrando na própria máquina que fabrica os filmes.
Ferramentas generativas já atravessam discussões sobre roteiro, storyboard, pré-visualização, efeitos visuais, edição, voz, dublagem, tradução, publicidade, criação de imagens e geração de vídeo, enquanto estúdios experimentam formas de incorporar essas tecnologias sem desencadear outra guerra aberta com atores, roteiristas, artistas e sindicatos.
Isso significa que Hollywood não está observando a revolução tecnológica do lado de fora.
Hollywood está sendo reorganizada por ela.
A próxima revolução cinematográfica pode não acontecer na tela, mas atrás dela
Cinema já atravessou diversas revoluções tecnológicas que inicialmente pareciam ameaças e depois se tornaram parte de sua linguagem. Som mudou radicalmente produção e atuação, cor alterou estética e fotografia, televisão reorganizou o negócio, CGI tornou possíveis imagens que antes exigiam cenários físicos extraordinariamente caros, streaming modificou distribuição e comportamento do público, enquanto smartphones transformaram profundamente a maneira como vídeo é produzido, distribuído e consumido.
A inteligência artificial pode ser diferente porque não atinge apenas uma etapa desse processo. Ela potencialmente atravessa quase todas ao mesmo tempo.
Um pequeno produtor poderá utilizar IA para criar conceitos visuais, testar cenas, produzir storyboards, traduzir roteiros, gerar versões preliminares de efeitos, dublar conteúdo em diversos idiomas e eventualmente produzir sequências que hoje exigiriam equipes e orçamentos muito maiores. Isso poderia democratizar uma parte extraordinária da produção audiovisual e permitir que criadores independentes disputassem atenção com estruturas muito maiores.
Mas existe também a possibilidade oposta.
Se os melhores modelos, chips, data centers, sistemas de distribuição e infraestrutura computacional permanecerem concentrados em poucas empresas, a mesma tecnologia capaz de democratizar criação poderá concentrar ainda mais a infraestrutura necessária para produzir e distribuir conteúdo em escala.
A câmera digital barateou filmar.
A IA pode baratear imaginar.
Só que alguém ainda será dono da máquina que transforma aquela imaginação em pixels.
E é aí que a discussão deixa de ser apenas criativa e começa a ser econômica.
Quem realmente controla Hollywood agora?
Durante décadas, essa pergunta parecia relativamente fácil de responder porque existiam grandes estúdios, conglomerados de mídia, redes de televisão, distribuidores, bancos e investidores especializados financiando e controlando grande parte da indústria.
Essa arquitetura ficou muito mais confusa.
Amazon possui MGM e participa diretamente da produção e distribuição audiovisual enquanto também opera uma das maiores infraestruturas de cloud computing do planeta. Apple produz e financia filmes ao mesmo tempo em que controla hardware, software, distribuição digital e um ecossistema global de serviços. Netflix construiu um dos maiores sistemas internacionais de distribuição audiovisual da história combinando tecnologia, dados e produção. Google controla YouTube e uma parte gigantesca da economia global de publicidade digital, enquanto Amazon, Microsoft e Google operam infraestrutura computacional essencial para boa parte da economia digital.
Agora acrescente inteligência artificial.
As mesmas empresas capazes de financiar conteúdo também podem fornecer o cloud no qual modelos são executados, desenvolver ferramentas utilizadas na produção, controlar sistemas de distribuição e possuir dados sobre comportamento da audiência.
Quando todas essas camadas começam a se encontrar, perguntar “quem controla Hollywood?” deixa de produzir uma resposta simples.
Talvez ninguém controle tudo.
Mas poucas empresas começam a controlar coisas demais.
Quem está colocando dinheiro nessa transformação?
O cinema sempre dependeu de capital externo, portanto seria ingenuidade imaginar uma época romântica em que arte e dinheiro viviam em universos separados. Estúdios, bancos, conglomerados, fundos, investidores privados e distribuidores sempre influenciaram aquilo que consegue ou não chegar às telas.
O que está mudando é a natureza do capital.
Amazon pode olhar para cinema como uma peça dentro de um ecossistema que inclui cloud computing, publicidade, comércio eletrônico, assinatura, hardware e inteligência artificial. Apple não precisa avaliar cada produção utilizando exatamente a mesma lógica de um estúdio tradicional porque cinema também pode fortalecer serviços, dispositivos e marca. Netflix nasceu combinando tecnologia e entretenimento, enquanto empresas que fornecem infraestrutura de IA podem ganhar dinheiro independentemente de qual estúdio produza o filme, desde que a produção dependa de computação.
Isso cria uma relação de poder muito mais sofisticada do que a imagem antiga do executivo do estúdio telefonando para pedir que determinada cena seja retirada.
Dependência econômica raramente precisa funcionar através de ordens explícitas.
Quando fornecedor, investidor, parceiro comercial, distribuidor, plataforma e produtor começam a ocupar partes diferentes da mesma cadeia, as fronteiras daquilo que é comercialmente confortável podem mudar antes mesmo de alguém precisar dizer “não faça esse filme”.
É por isso que Artificial merece ser observado com cuidado, não como prova de censura, mas como exemplo de uma arquitetura industrial na qual tecnologia e entretenimento estão ficando tão entrelaçados que os conflitos de interesse do futuro poderão ser muito mais difíceis de enxergar.
Então não é estranho Hollywood transformar essas pessoas em vilões?
É justamente essa contradição que torna toda essa onda tão interessante.
Hollywood está produzindo histórias sobre poder tecnológico enquanto se torna cada vez mais dependente da infraestrutura, do capital e das ferramentas desenvolvidas pelo próprio setor tecnológico. Amazon participa de Hollywood enquanto aprofunda investimentos em inteligência artificial, Apple produz cinema enquanto compete na economia digital, Netflix experimenta ferramentas de IA enquanto produz conteúdo global, e praticamente toda a indústria depende de plataformas, cloud, algoritmos e infraestrutura pertencentes às empresas que seus roteiristas começam a transformar em matéria-prima dramática.
À primeira vista, isso parece hipocrisia.
Talvez seja também ansiedade.
Instituições culturais frequentemente começam a produzir críticas sobre determinado sistema justamente quando percebem que estão sendo absorvidas por ele. Hollywood fez filmes sobre Wall Street enquanto dependia de financiamento, produziu histórias sobre conglomerados enquanto fazia parte de conglomerados e agora começa a produzir narrativas sobre concentração tecnológica enquanto sua própria cadeia produtiva se aproxima cada vez mais dessas empresas.
O cinema talvez não esteja atacando um inimigo externo.
Pode estar tentando entender aquilo em que está se transformando.
Existe ainda uma possibilidade mais desconfortável: ser transformado em vilão também pode beneficiar os CEOs
Hollywood pode acreditar que está criticando Silicon Valley enquanto simultaneamente ajuda a construir sua mitologia.
Quando um filme apresenta Zuckerberg, Musk ou Altman como homens capazes de alterar eleições, sociedades, economias ou o futuro da inteligência artificial, existe uma crítica evidente à concentração de poder, mas existe também uma mensagem implícita extraordinariamente conveniente para o próprio Vale: essas pessoas seriam tão importantes que o destino da civilização dependeria das decisões delas.
Essa narrativa transforma estruturas coletivas gigantescas em biografias.
Milhares de engenheiros, pesquisadores, trabalhadores, investidores, universidades, fabricantes de chips, fornecedores de energia, governos e instituições participaram da construção da infraestrutura tecnológica contemporânea, mas cinema precisa colocar alguém no centro do pôster.
Andrew Garfield interpretando Sam Altman funciona muito melhor do que uma representação cinematográfica dos incentivos econômicos da indústria de semicondutores.
A crítica então corre o risco de produzir exatamente aquilo que Silicon Valley sempre soube fabricar muito bem: fundadores mitológicos.
Ser transformado no homem perigoso que está construindo uma tecnologia capaz de mudar a civilização continua significando ser apresentado como o homem que está construindo uma tecnologia capaz de mudar a civilização.
Existe ego suficiente em Silicon Valley para sobreviver a esse tipo de vilanização.
O verdadeiro problema talvez não sejam Zuckerberg, Musk ou Altman
Personalizar a história também permite evitar uma pergunta estrutural muito mais desconfortável.
Se Sam Altman desaparecesse amanhã, a corrida pela inteligência artificial continuaria porque OpenAI, Anthropic, Google, Meta, xAI e outros atores permaneceriam competindo por modelos, capital, chips, energia, clientes e talentos. Se Zuckerberg deixasse Meta, a economia da atenção não desapareceria. Se Musk vendesse suas empresas, governos ainda precisariam de satélites, foguetes, comunicação e infraestrutura tecnológica.
Os personagens podem mudar enquanto os incentivos permanecem.
É muito mais simples perguntar se determinado CEO é perigoso do que perguntar por que construímos uma economia na qual empresas privadas precisam desenvolver tecnologias cada vez mais poderosas porque desacelerar unilateralmente pode significar perder investidores, talentos, clientes, infraestrutura e posição estratégica.
Essa é a limitação inevitável do cinema.
Estruturas econômicas são personagens terríveis.
Tom Cruise funciona muito melhor.
O que realmente mudou culturalmente
Durante quase duas décadas, Silicon Valley ocupou uma posição cultural extraordinária porque o banqueiro parecia establishment, o político parecia establishment, o magnata do petróleo parecia establishment, enquanto o fundador tecnológico ainda carregava a estética de alguém que estava entrando de fora para destruir tudo aquilo.
Mesmo quando algumas empresas tecnológicas se tornaram maiores, mais ricas e mais influentes do que instituições que originalmente prometiam desafiar, a estética permaneceu curiosamente rebelde. O moletom, o tênis, o campus descontraído, o podcast informal e as declarações sobre mudar o mundo ajudaram a preservar a imagem de outsider muito depois de o outsider ter construído seu próprio império.
Essa imagem parece finalmente estar quebrando.
O fundador deixou de ser automaticamente percebido como o hacker entrando no sistema e começou a ser percebido como alguém que pode possuir partes importantes demais do próprio sistema.
Essa é uma mudança cultural enorme porque poder econômico e legitimidade cultural não são a mesma coisa. Silicon Valley pode continuar aumentando receitas, investimentos e influência política enquanto perde a percepção pública de que seus líderes deveriam naturalmente receber liberdade para construir o futuro que imaginam.
É exatamente nesse intervalo entre poder e legitimidade que Hollywood costuma encontrar seus melhores vilões.
Mountainhead talvez seja a imagem definitiva desse momento
Quatro homens estão protegidos numa mansão nas montanhas enquanto o mundo enfrenta as consequências de tecnologias que pessoas como eles colocaram em circulação. Eles possuem dinheiro suficiente para permanecer longe do caos, informação suficiente para compreender o que está acontecendo e poder suficiente para imaginar que talvez também possuam autoridade para decidir aquilo que deveria ser feito.
A sátira funciona porque exagera apenas o suficiente para continuar reconhecível.
Não precisamos acreditar que quatro bilionários estão literalmente sentados numa montanha decidindo o destino do planeta para perceber a ansiedade que a imagem representa. Decisões capazes de alterar comunicação, inteligência artificial, infraestrutura, trabalho e política estão sendo tomadas dentro de organizações privadas às quais cidadãos comuns possuem pouquíssimo acesso.
O detalhe realmente importante é que o público entende a referência imediatamente.
Isso significa que o arquétipo já existe.
Talvez estejamos assistindo ao fim cultural do “tech hero”
The Social Reckoning transforma Zuckerberg de outsider em Golias, enquanto Musk pergunta implicitamente quanto poder uma pessoa privada deveria conseguir acumular. Artificial dramatiza a disputa sobre quem controla uma tecnologia que promete alterar profundamente economia e sociedade, ao passo que Mountainhead transforma bilionários tecnológicos numa espécie de conselho informal observando o restante do mundo do alto de uma montanha. Digger amplia o arquétipo para além de Silicon Valley e apresenta outro magnata convencido de que consegue salvar a humanidade depois de participar da criação da própria catástrofe.
E Metropolis, cem anos depois, continua lembrando que nossa ansiedade em relação à tecnologia nunca foi simplesmente sobre máquinas.
Sempre foi também sobre quem possui as máquinas, quem decide como elas serão utilizadas e quem precisa viver com as consequências dessas decisões.
Talvez seja por isso que tecnologia tenha se tornado novamente um dos grandes assuntos do cinema. Não porque Hollywood tenha descoberto repentinamente que Zuckerberg, Musk ou Altman rendem bons personagens, mas porque estamos entrando numa fase histórica em que tecnologia começa a deixar de parecer apenas produto e passa a parecer uma forma de poder.
Quando essa percepção muda, a cultura muda junto.
Durante a primeira fase, o fundador é celebrado porque está construindo o futuro. Depois começa a ser questionado porque acumulou poder demais para construí-lo sem supervisão. Em seguida, torna-se personagem de documentários e dramas, até que sua figura começa a funcionar como símbolo de uma ansiedade coletiva muito maior do que sua própria biografia.
Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo agora.
E existe uma ironia especialmente boa em tudo isso: Hollywood começa a perguntar se empresas tecnológicas ficaram poderosas demais justamente quando essas empresas estão ficando poderosas o suficiente para financiar produções, possuir estúdios, controlar plataformas de distribuição, fornecer cloud, desenvolver modelos de inteligência artificial e vender as ferramentas que poderão produzir uma parcela crescente do próprio cinema.
O novo vilão não precisa mais tentar invadir Hollywood.
Talvez ele já esteja pagando a conta.
Perguntas que ficam para o leitor
Estamos realmente assistindo a uma mudança cultural na percepção dos bilionários de tecnologia ou Hollywood simplesmente encontrou o personagem perfeito para representar as ansiedades desta década?
Quando The Social Reckoning, Musk, Artificial e Mountainhead aparecem praticamente na mesma era, estamos diante de coincidência criativa ou do nascimento de um novo gênero sobre concentração de poder tecnológico?
Se empresas de tecnologia financiam produções, controlam plataformas, fornecem cloud e desenvolvem as ferramentas de inteligência artificial que Hollywood começará a utilizar, até onde a indústria cinematográfica conseguirá criticá-las com independência?
O caso de Artificial deve ser observado apenas como uma decisão comercial comum ou como antecipação de um futuro no qual as relações econômicas entre estúdios e empresas tecnológicas tornarão determinados projetos desconfortáveis antes mesmo de qualquer tentativa explícita de censura?
A inteligência artificial será para o cinema uma transformação comparável ao CGI ou estamos diante de algo muito maior porque a mesma tecnologia pode interferir simultaneamente em roteiro, imagem, voz, atores, efeitos, tradução, edição e distribuição?
Se IA reduzir drasticamente o custo de produzir imagens cinematográficas, veremos uma explosão de criadores independentes ou apenas uma nova concentração ao redor das empresas capazes de controlar os melhores modelos, chips e data centers?
Hollywood está realmente criticando Zuckerberg, Musk e Altman ou está ajudando a transformá-los em personagens mitológicos ao sugerir que alguns poucos homens individualmente possuem capacidade para decidir o futuro tecnológico da humanidade?
Quando Mountainhead coloca magnatas isolados numa mansão nas montanhas discutindo como resolver um mundo afetado pelas tecnologias que pessoas como eles controlam, estamos assistindo apenas a uma sátira ou a uma caricatura desconfortavelmente próxima da nova arquitetura do poder?
E se o próximo grande salto do cinema depender justamente da inteligência artificial construída pelas mesmas empresas que seus filmes começam a representar como ameaça, quem exatamente terá poder para contar a história de quem?
Continue acompanhando a Tech Gossip
A próxima batalha cultural da inteligência artificial talvez não aconteça apenas dentro de laboratórios, data centers ou Washington, porque cinema não serve apenas para mostrar aquilo que uma sociedade admira; ele também revela aquilo que uma sociedade começou a temer.
Quando os antigos heróis de Silicon Valley começam a aparecer repetidamente como Golias, oligarcas, magnatas e homens convencidos de que possuem capacidade para decidir o futuro coletivo, alguma coisa mudou antes mesmo que qualquer regulador escrevesse uma nova lei.
A Tech Gossip continuará acompanhando justamente esse ponto em que tecnologia, dinheiro, cultura, entretenimento e poder deixam de parecer setores separados e começam a revelar que talvez estejam se tornando partes do mesmo sistema.
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