As Novelas da IA Estão Dominando o X. E Milhares de Criadores Estão Sendo Pagos para Manipular Sua Atenção.
Histórias falsas de traição, injustiça e vingança estão acumulando milhões de visualizações na plataforma de Elon Musk. Por trás delas existe um modelo de negócios que transforma emoções humanas .
As Novelas da IA Estão Dominando o X. E Milhares de Criadores Estão Sendo Pagos para Manipular Sua Atenção.
Histórias falsas de traição, injustiça e vingança estão acumulando milhões de visualizações na plataforma de Elon Musk. Por trás delas existe um modelo de negócios que transforma emoções humanas em receita publicitária.
Durante muito tempo acreditamos que a inteligência artificial seria usada principalmente para automatizar atendimento, escrever e-mails ou criar imagens. Mas uma das aplicações mais lucrativas surgiu em um lugar muito diferente: a fabricação industrial de histórias emocionais feitas para prender a atenção das pessoas.
A reportagem da WIRED mostra que o X está sendo tomado por milhares de narrativas que parecem relatos reais. São histórias escritas em primeira pessoa sobre divórcios, heranças roubadas, julgamentos, traições familiares e injustiças no trabalho. Elas parecem testemunhos de pessoas comuns, mas, em muitos casos, foram produzidas por inteligência artificial e publicadas apenas porque existe dinheiro envolvido.
O mais curioso é que essas histórias não estão viralizando porque são bem escritas. Elas viralizam porque seguem uma fórmula cuidadosamente otimizada para explorar o funcionamento do cérebro humano.
O X criou um incentivo financeiro para produzir emoções
O problema não começou com a inteligência artificial. Ele começou quando as plataformas passaram a remunerar criadores pelo nível de engajamento que conseguem gerar.
Hoje, usuários Premium do X que atingem milhões de impressões podem participar do programa de compartilhamento de receita da plataforma. Quanto maior o alcance das publicações, maior pode ser o pagamento recebido. A consequência desse modelo é previsível: se a remuneração depende da atenção, os criadores passam a competir para descobrir qual tipo de conteúdo prende as pessoas por mais tempo.
Foi exatamente isso que aconteceu.
A WIRED entrevistou um jovem nigeriano de 21 anos que admite utilizar ChatGPT e Grok para produzir essas histórias. Segundo ele, o trabalho consiste basicamente em pedir para a IA criar um roteiro dramático, fazer pequenos ajustes e publicar a sequência de tweets. O retorno financeiro gira entre 500 e 700 dólares por ciclo de pagamento, enquanto outros criadores afirmam ganhar vários milhares de dólares.
Nesse modelo, a criatividade deixa de ser o principal ativo. O que vale dinheiro é a capacidade de fabricar atenção.
Existe uma engenharia psicológica por trás dessas histórias
Quem lê algumas dessas threads rapidamente percebe que elas parecem diferentes, mas seguem exatamente a mesma estrutura narrativa.
Sempre existe uma vítima completamente inocente. Sempre existe um vilão exageradamente cruel. Sempre existe um momento em que tudo parece perdido.
E quase sempre aparece uma prova secreta, uma gravação escondida ou um documento inesperado que destrói publicamente o antagonista.
Essa repetição não é coincidência.
Pesquisadores entrevistados pela WIRED explicam que essas histórias foram reduzidas a um modelo extremamente eficiente de retenção. Elas exploram emoções universais como indignação, desejo de justiça, vingança e humilhação pública. São gatilhos psicológicos que mantêm o leitor avançando até descobrir “o que aconteceu depois”.
Em outras palavras, a IA não aprendeu apenas a escrever. Ela aprendeu quais emoções produzem mais tempo de tela.
A plataforma não recompensa a verdade. Recompensa quem prende sua atenção.
Esse talvez seja o aspecto mais importante de toda essa história.
Muita gente acredita que as redes sociais valorizam conteúdo de qualidade. Na prática, elas valorizam conteúdo capaz de aumentar o tempo de permanência do usuário.
Uma história verdadeira que prende alguém por trinta segundos pode valer menos para o algoritmo do que uma ficção melodramática que mantém a pessoa lendo durante cinco minutos.
O algoritmo não mede autenticidade. Ele mede comportamento.
Quanto mais tempo você permanece lendo, mais o sistema entende que aquele formato merece ser distribuído para outras pessoas.
É por isso que essas narrativas estão se multiplicando tão rapidamente. Não porque sejam boas. Mas porque são eficientes.
O verdadeiro cliente dessas histórias não é você
Existe uma inversão silenciosa acontecendo.
Essas histórias parecem ter sido escritas para leitores, mas, na realidade, elas são produzidas para convencer outra inteligência artificial: o algoritmo do X.
Cada frase termina com um gancho.
Cada revelação prepara outra.
Cada conflito foi calculado para impedir que você abandone a leitura.
O leitor virou apenas a matéria-prima que alimenta esse processo.
Quanto mais você lê, comenta e compartilha, mais dados entrega para que o algoritmo descubra quais emoções devem ser exploradas na próxima história.
No fim, a IA não está apenas automatizando escritores. Ela está automatizando a fabricação da atenção humana.
O que está realmente por trás desse fenômeno
O caso mostra uma transformação importante da economia digital. Durante anos dizia-se que “conteúdo é rei”. Hoje, o conteúdo é apenas o veículo. O verdadeiro produto é a emoção que ele consegue provocar.
A inteligência artificial reduziu o custo de produzir milhares de histórias por dia. O algoritmo identifica quais geram mais retenção. A plataforma remunera quem consegue manter usuários conectados por mais tempo. E os anunciantes pagam pela atenção capturada nesse processo.
Perceba que ninguém, nessa cadeia, é recompensado porque informou melhor o público.
Todos são recompensados porque conseguiram capturar mais minutos da sua vida.
Essa é a mudança estrutural. A internet deixou de disputar informação. Agora disputa estados emocionais.
O principal exemplo citado é:
1. BIGBEN
É o caso central investigado pela WIRED.
Segundo a reportagem, BIGBEN afirma ser um trader de 21 anos na Nigéria e admite utilizar ChatGPT e Grok para escrever praticamente todas as histórias que publica. Ele disse ao jornalista que basta fornecer um prompt para gerar uma nova thread e afirmou receber entre US$ 500 e US$ 700 por ciclo de pagamento do programa de compartilhamento de receita do X. Uma de suas histórias ultrapassou 1,5 milhão de visualizações em apenas dois dias.
Exemplos de histórias publicadas por ele:
“Durante seis meses meu marido convenceu todos de que eu havia roubado milhões...”
“Minha sogra tentou destruir meu casamento...”
“Meu chefe roubou minha empresa...”
“Minha família me expulsou da herança...”
Todas seguem praticamente o mesmo padrão narrativo.
Outros perfis seguem exatamente o mesmo formato
Embora a WIRED não publique seus nomes, basta pesquisar no X por frases como:
“My husband convinced everyone...”
“As I sat in court...”
“The judge looked at me...”
“My mother-in-law...”
“I was fired because...”
“I inherited...”
Você encontrará dezenas de contas diferentes publicando histórias quase idênticas.
Os perfis costumam ter características muito parecidas:
foto criada por IA ou banco de imagens;
biografia dizendo apenas “Storyteller”, “Digital Storyteller”, “Writer”, “Daily Stories” ou “Emotional Stories”;
dezenas de threads publicadas todos os dias;
praticamente nenhum conteúdo pessoal;
respostas automáticas agradecendo comentários.
A própria WIRED observa que muitos desses criadores se apresentam apenas como “storytellers”, embora publiquem as histórias como se fossem experiências pessoais.
O padrão é mais importante do que o perfil
Na verdade, o maior erro seria focar apenas no BIGBEN.
O que existe hoje é uma indústria de storytelling por IA.
Uma pessoa cria um prompt.
A IA gera cinquenta histórias.
Dez contas diferentes publicam essas histórias.
O algoritmo testa qual delas viraliza.
A vencedora gera receita.
Depois o ciclo recomeça.
Ou seja, o perfil é descartável.
O ativo verdadeiro é o prompt.
Perguntas para o leitor
Você consegue identificar quando uma história foi escrita por IA ou ainda acredita que a maioria desses relatos é verdadeira?
Plataformas deveriam pagar apenas por visualizações ou também considerar autenticidade e qualidade do conteúdo?
Estamos entrando em uma era em que a emoção vale mais do que a verdade?
Se uma história falsa desperta sentimentos reais, o dano causado por ela é menor ou maior?
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