Alunos estão usando agentes de IA para cursar o EAD inteiro por eles. E o Brasil acabou de colocar 73,5% dos calouros nesse formato
Os agentes ficam logados no Canvas e no Blackboard assistindo às aulas, fazendo os testes e respondendo aos colegas no fórum. O que isso revela sobre o que esses cursos realmente mediam, e o que dá para fazer a respeito.
O New York Times documentou um comportamento que muda a natureza do problema.
Não é mais aluno pedindo resposta ao ChatGPT. É aluno instalando um agente, dando acesso à plataforma de ensino e saindo de perto.
O agente entra no Canvas ou no Blackboard. Assiste às videoaulas. Responde aos questionários. Escreve os trabalhos. E participa dos fóruns de discussão, onde deveria haver conversa entre colegas sobre as leituras da semana, se passando pelo aluno. Enquanto isso, a pessoa faz outra coisa. Ou nada.
Karen Costa, que passou duas décadas dando aulas de escrita, contou ao Times a pergunta que passou a se fazer: “Será que estou interagindo apenas com bots?”
Se um software consegue cursar uma faculdade inteira do começo ao fim, o que exatamente aquele curso estava medindo?
A pergunta acima é a única que importa, e ela não é sobre trapaça
Vamos com calma aqui, porque este é o ponto do texto inteiro.
Um agente de IA não é inteligente do jeito que um aluno é. Ele é bom em executar sequências de tarefas definidas: clicar, aguardar, preencher, enviar, responder.
Se um executor de tarefas consegue completar um curso com aproveitamento, então aquele curso não estava avaliando aprendizado. Estava avaliando cumprimento de fluxo.
São coisas diferentes, e a diferença ficou invisível por vinte anos porque, até ontem, a única forma de cumprir o fluxo era ter uma pessoa fazendo aquilo.
O agente não quebrou a educação online. Ele revelou que boa parte dela mediu presença, entrega e clique, e chamou isso de aprendizagem.
É a Lei de Goodhart no estado mais puro que eu já vi: quando uma medida vira meta, ela deixa de ser uma boa medida. O sistema de gestão de aprendizagem transformou estudo em uma lista de ações mensuráveis. No instante em que essas ações puderam ser automatizadas, a medida morreu.
E ela não morreu por causa da IA. Morreu porque nunca mediu o que dizia medir. A IA só apresentou a conta.
Por que ninguém no sistema quer resolver isso
Aqui está a parte incômoda, e ela explica por que o problema vai crescer e não diminuir. Percorra a cadeia e procure alguém com incentivo real para impedir.
O aluno quer o diploma. Em muitos casos, quer especificamente o diploma e não o conteúdo, porque o mercado exige o papel para a vaga. Quem cursa EAD noturno depois de oito horas de trabalho não está fazendo escolha filosófica, está fazendo aritmética de sobrevivência.
A instituição recebe a mensalidade de qualquer maneira. Reprovar em massa é prejuízo direto, aumenta evasão e piora indicador. E muitas universidades assinaram contratos com empresas de IA para oferecer versões institucionais dos modelos aos próprios alunos.
Esse último detalhe cria a contradição que os professores relatam. A Universidade Estadual da Califórnia fechou um contrato milionário com a OpenAI no ano passado. Carol Sewell, do sistema, resumiu para o Times: “Não estou recebendo nenhuma orientação sobre como dissuadir o uso dessas ferramentas. Estou tendo oportunidades de aprender mais sobre como usá-las.”
A instituição diz proibir e oferece licença. O aluno lê corretamente qual das duas mensagens é a verdadeira.
A empresa de IA vende a ferramenta. E, segundo o levantamento do Times, nenhum dos três produtos mais usados por estudantes recusaria escrever um trabalho inteiro em nome do aluno. Nenhum bloqueia acesso de agentes a Canvas ou Blackboard. E todos ignoraram o pedido de educadores para que os modelos se identifiquem ao operar nessas plataformas.
A justificativa da Perplexity merece ser lida devagar: exigir que agentes se identifiquem em plataformas de aprendizagem “colocaria a privacidade e a segurança do aluno em risco”.
É um argumento que só funciona se a gente presumir que o interesse a proteger é o de não ser pego. Privacidade protege a pessoa contra vigilância indevida. Não protege um software de dizer que é software quando entra num sistema em nome de alguém.
O professor é o único ator com incentivo para agir, e é o que tem menos poder. Sem prova presencial, sem apresentação oral, sem orientação institucional, cada um decide sozinho. Alguns ignoram, outros punem duro, e o resultado é uma régua diferente por sala.
E o empregador só descobre anos depois, quando contrata.
Cinco elos na corrente. Quatro ganham com o silêncio.
O ativo comum que está sendo consumido
Existe um efeito de segunda ordem que quase ninguém está calculando.
Cada aluno que faz isso obtém um benefício individual e produz um dano coletivo: dilui o valor do diploma daquele curso, daquela instituição, daquela modalidade.
O ganho é privado e imediato. A perda é compartilhada e lenta.
É a tragédia dos comuns aplicada a credenciais. E a característica cruel dessa dinâmica é que a conta não chega para quem causou. Chega para o colega que estudou de verdade, na mesma turma, com o mesmo diploma na parede, tentando explicar numa entrevista que no caso dele foi diferente.
O sinal de um diploma é uma reputação coletiva. E reputação coletiva se destrói de dentro, silenciosamente, até o dia em que o mercado simplesmente para de acreditar.
O recorte brasileiro, e aqui a exposição é a maior do mundo
Agora os números que fazem esta matéria americana ser, na verdade, uma matéria brasileira urgente.
Segundo o Censo da Educação Superior de 2024, do Inep, o ensino a distância passou a ser majoritário no Brasil: 50,7% das matrículas de graduação, com 5,1 milhões de alunos em EAD contra 5 milhões no presencial. Foi a primeira vez na história.
E o dado que realmente assusta: 73,5% dos ingressantes de 2024 entraram em cursos a distância.
Quase três em cada quatro calouros brasileiros. Entre 2014 e 2024, a matrícula em EAD cresceu 286,7%, enquanto a presencial caiu 22,3%.
Ou seja: o Brasil é, provavelmente, o país grande mais exposto do planeta a esse problema específico. Não porque os estudantes brasileiros sejam menos honestos, mas porque a arquitetura do sistema é a que o agente consegue operar.
E aqui vem a parte que eu não esperava encontrar ao apurar isso.
O Brasil regulou pelo motivo errado e acertou por acidente
Em maio de 2025, o MEC assinou o decreto da Nova Política de Educação a Distância.
As regras principais:
Medicina, direito, enfermagem, odontologia e psicologia passam a ser oferecidos exclusivamente presenciais.
Todos os demais cursos em EAD precisam ter no mínimo 20% da carga horária em atividades presenciais ou síncronas, com interação em tempo real.
E, o mais importante: cada disciplina precisa ter ao menos uma avaliação presencial, e essa prova deve ser a de maior peso na nota final, avaliando competências como análise, síntese ou prática.
Licenciaturas e demais cursos de saúde não podem passar de 50% de carga à distância. Dois anos de transição.
O decreto foi escrito para resolver outro problema: formação prática deficiente, estágio de fachada, expansão predatória de vagas. Agentes de IA não estavam na conversa em maio de 2025.
Mas leia de novo a regra da avaliação presencial de maior peso.
É exatamente a defesa que as universidades americanas estão correndo atrás agora, em pânico, depois do fato.
A Faculdade de Direito da Universidade de Chicago acabou de proibir celular, tablet e notebook em sala nas disciplinas do primeiro ano, como parte de sua nova “estratégia de IA”. Princeton abandonou o Código de Honra centenário, que permitia prova sem fiscalização, depois de um escândalo de fraude com IA.
Duas das instituições mais prestigiadas do mundo estão desfazendo tradições de cem anos para reinstalar o que o decreto brasileiro tornou obrigatório por outro motivo.
Isso não é motivo para comemorar, e sim para prestar atenção em duas coisas.
Primeira: a regra existe, mas a fiscalização é a variável. Regra de avaliação presencial só vale se a avaliação presencial acontecer com identificação, em local controlado, e com peso real na média. Polo de apoio presencial no Brasil tem qualidade que varia enormemente, e o histórico de fiscalização do setor não inspira otimismo.
Segunda: dois anos de transição significam dois anos de exposição. E os agentes não vão esperar a adaptação curricular terminar.
O que fazer, dependendo de onde você está
Se você coordena curso ou dá aula
Pare de tentar detectar. Detector de IA não funciona de forma confiável, gera falso positivo contra aluno honesto e coloca o professor no papel de policial numa corrida que ele perde. Cada hora gasta em detecção é uma hora não gasta em redesenho.
Mude o que é avaliado, não o que é vigiado. A pergunta de projeto é simples: um agente consegue fazer isto sem a pessoa? Se consegue, aquilo não é avaliação, é tarefa.
Peça processo, não produto. Rascunho comentado, versões intermediárias, defesa oral de cinco minutos sobre o próprio trabalho, justificativa de escolha metodológica. Agente entrega produto muito bem. Ninguém consegue defender oralmente um raciocínio que não fez.
Use material que não está no modelo. Dado da própria turma, caso local, entrevista feita pelo aluno, evento da semana. Trabalho ancorado no específico é caro de simular e barato de propor.
Avalie ao vivo, mesmo que pouco. Uma banca de dez minutos por aluno por semestre resolve mais que dez ferramentas de detecção. É a lógica do decreto brasileiro, e ela funciona porque não tenta adivinhar como o trabalho foi feito. Verifica se a pessoa sabe.
E assuma uma posição institucional. O pior cenário para o aluno não é a proibição nem a liberação. É cada professor com uma regra, o que ensina que a norma é arbitrária e que o problema é ser pego.
Se você contrata
Pare de tratar diploma como prova de competência e comece a tratar como filtro de triagem. Ele já vinha perdendo poder informativo. Agora perdeu mais.
Teste no processo seletivo o que o cargo exige de verdade, ao vivo, com conversa. Não prova de múltipla escolha remota, que é o formato mais automatizável que existe.
E não descarte candidato por causa da modalidade do curso. Isso seria injusto e ineficaz: quem cursou EAD com seriedade não tem culpa, e quem burlou também existe no presencial. A modalidade não é o sinal. O que a pessoa consegue explicar é.
Se você é estudante
Vou ser direta, sem sermão.
O agente entrega o diploma e não entrega a única coisa que o diploma deveria representar, que é você conseguir fazer aquilo. Você vai descobrir a diferença no primeiro dia do primeiro emprego, num ambiente onde ninguém te avalia por entrega no Canvas e todo mundo te avalia por perguntas que você não pode terceirizar.
Existe pesquisa sugerindo que uso intensivo dessas ferramentas está associado a pensamento crítico comprometido e a prejuízo de retenção. A literatura ainda é jovem e eu não vou vender certeza que ela não tem. Mas a intuição é banal e todo mundo já viveu: você não aprende a nadar assistindo.
E existe uma versão honesta e muito produtiva de usar essas ferramentas para estudar: pedir explicação de conceito que você não entendeu, pedir contraexemplo, pedir que critiquem o seu argumento, pedir simulação de arguição. Isso é tutor. O agente que faz o curso por você é o oposto: ele tem a experiência e você fica com o boleto.
O fecho
O que está acontecendo não é uma onda de trapaça. Trapaça sempre existiu, e cola em prova é mais velha que a universidade. O que mudou é a escala e o objeto.
Escala, porque não é mais um aluno colando numa questão. É um software cumprindo um semestre inteiro, incluindo as partes que existiam justamente para provar presença humana, como o fórum de discussão.
E objeto, porque o alvo deixou de ser a resposta e passou a ser o processo de avaliação inteiro.
Quando alguém automatiza integralmente um sistema de avaliação, a conclusão honesta não é que os alunos ficaram desonestos. É que o sistema estava medindo a coisa errada, e agora todo mundo sabe.
O Brasil colocou 73,5% dos seus calouros dentro desse formato. Escreveu, quase por acaso, a regra que pode protegê-lo. E deu a si mesmo dois anos para implementá-la.
O prazo é apertado. E os agentes já estão logados.
Três perguntas antes de você fechar a aba.
Na disciplina que você coordena ou cursa, quantas atividades um agente conseguiria completar sozinho, do começo ao fim, sem que ninguém notasse?
Se a resposta for “quase todas”, o que exatamente aquele curso estava medindo antes de os agentes existirem?
E na sua empresa, quando alguém apresenta um relatório, existe algum momento em que essa pessoa precisa defender oralmente o que escreveu?
Se você chegou até aqui, você é do tipo que quer o bastidor, não o palco.
A Tech Gossip publica toda semana o que o comunicado de imprensa não conta: quem ganha poder, dinheiro e influência com a tecnologia que acabou de ser anunciada.
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Fontes: Futurism, Frank Landymore, 13/08/2026 · The New York Times, sobre agentes cursando disciplinas online · Inep, Censo da Educação Superior 2024 · Agência Gov, decreto da Nova Política de EaD · Agência Brasil, o que muda com a nova política de EaD · The Atlantic, sobre o Código de Honra de Princeton


