TECH GOSSIP™ | O que a WIRED descobriu sobre a nova disputa pelo controle dos nomes da internet
Enquanto você paga para ter um endereço na internet, empresas disputam o direito de controlar as extensões que todos terão de usar. A nova corrida envolve milhões de dólares, inteligência artificial e poder sobre a identidade digital.
Antes de tudo: como alguém pode ser dono de um domínio da internet?
Quando você compra um endereço como minhaempresa.com, não está comprando uma propriedade definitiva. Está pagando pelo direito de usar aquele nome por um período determinado, normalmente renovável.
Mas existe uma diferença enorme entre registrar um domínio e controlar uma extensão inteira.
Imagine três níveis de poder:
Nível 1: Quem usa o domínio
Uma pessoa ou empresa registra um nome disponível, como minhamarca.com, paga uma taxa e mantém o direito de usá-lo enquanto cumprir as regras e renovar o registro.
Nível 2: Quem vende o registro
Empresas como GoDaddy, Namecheap e outras funcionam como registradores. São intermediários autorizados entre quem deseja um domínio e a organização responsável por sua extensão.
Cobram pelo serviço e podem oferecer hospedagem, e-mail e proteção de dados.
Nível 3: Quem opera a extensão
Aqui começa o negócio maior.
Extensões como .com, .app, .meow e .agent são chamadas de domínios de topo.
Quem administra uma extensão é o operador do registro, conhecido como registry operator.
Esse operador administra tecnicamente a extensão, define condições comerciais dentro das regras aplicáveis e recebe receitas dos registros realizados por meio dos registradores.
Em outras palavras: uma coisa é pagar para usar minhamarca.app. Outra, completamente diferente, é operar o .app e receber receitas de milhares de registros e renovações.
Quem pode criar uma nova extensão?
Uma pessoa comum pode registrar um domínio disponível, como nomedamarca.com.
Mas criar uma extensão inédita, como .minhamarca, exige um processo muito mais complexo.
A ICANN, organização responsável pela coordenação global do sistema de nomes de domínio, conduz os programas de candidatura para novas extensões.
Para disputar uma extensão, o interessado precisa:
Constituir uma entidade elegível, normalmente uma empresa, fundação ou outra organização formalmente estabelecida. Pessoas físicas não podem apresentar candidaturas diretamente no programa de 2026.
Apresentar uma candidatura à ICANN durante a janela oficial de inscrições.
Pagar a taxa de avaliação, estabelecida em US$ 227 mil para a rodada de 2026, salvo reduções aplicáveis.
Demonstrar capacidade técnica, financeira e operacional para administrar a extensão.
Superar verificações, possíveis objeções e disputas com outros interessados na mesma palavra.
Assinar os contratos necessários e operar a infraestrutura de registro, diretamente ou com fornecedores especializados, caso a candidatura seja aprovada.
A aprovação não é automática. E o pagamento da taxa não garante a obtenção da extensão.
Como o dono de uma extensão ganha dinheiro?
Imagine que uma organização consiga operar .criador e que a extensão seja aprovada para comercialização.
Se 10 mil pessoas registrarem domínios nessa extensão e o operador receber US$ 15 por domínio ativo ao ano, a receita bruta potencial será de US$ 150 mil anuais.
Isso não representa lucro. Seria necessário descontar infraestrutura, fornecedores, taxas, marketing, conformidade, pessoal e demais custos operacionais.
É por isso que controlar uma extensão pode ser um negócio relevante. O operador não precisa vender apenas um nome. Pode receber receitas recorrentes de muitos registros e renovações.
Mas há um risco: uma extensão sem demanda pode custar muito mais do que arrecada.
O poder comercial não está simplesmente em inventar uma palavra. Está em fazer milhares de pessoas e empresas desejarem utilizá-la continuamente.
E existe uma última distinção: a ICANN não vende a propriedade absoluta de palavras. Ela concede, por contrato e dentro de regras específicas, o direito de operar determinados domínios de topo.
A reportagem da WIRED: o que realmente descobriram
A reportagem The Internet Runs on Cats and Porn. It’s About to Get Cattier and Pornier investiga uma mudança importante na infraestrutura da internet: a abertura de uma nova disputa comercial, política e cultural pelo direito de controlar extensões de domínio como .com, .app, .meow e .agent.
O que parece uma história curiosa sobre gatos e pornografia é, na realidade, uma investigação sobre quem pode possuir uma parte do sistema de endereçamento da internet, cobrar pelo seu uso e influenciar como pessoas e organizações constroem suas identidades digitais.
1. Os principais dados revelados
Mais de 1.600 inscrições em 2026: pedidos para novas extensões de domínio.
US$ 227 mil: taxa padrão de avaliação por extensão solicitada.
US$ 25 milhões: valor pago pelo Google em leilão para obter a extensão
.app.Aproximadamente US$ 1,5 bilhão: receita anual da Verisign, empresa que opera a extensão
.com.
Esses números mostram que o mercado dos nomes da internet vai muito além da compra de endereços para sites.
A rodada anterior ocorreu em 2012 e resultou em mais de 1.200 novos domínios de topo. Muitos não tiveram o sucesso comercial esperado.
Agora, a indústria está tentando novamente, com interesses que vão de marcas corporativas a comunidades independentes.
2. Quem está disputando o quê?
A reportagem identifica empresas e iniciativas com interesses bastante diferentes.
Google: comprou a extensão
.appem leilão por US$ 25 milhões na rodada anterior.Link Freedom Group (Nova Registry): solicitou 316 extensões, incluindo
.fart.Salesforce: planeja controlar
.salesforce.D3: trabalha com extensões como
.dogee.ape.Comunidade .agent: quer uma identidade para agentes de inteligência artificial sob governança compartilhada.
dotMeow Foundation: busca operar
.meowe financiar projetos da comunidade queer.Iniciativa .self: propõe uma extensão comunitária ligada à soberania de dados.
A lista revela uma transformação interessante.
As extensões já não representam apenas categorias comerciais ou países. Elas também podem expressar comunidades, culturas, tecnologias e modelos de organização.
3. A descoberta financeira: vender endereços pode gerar receita recorrente
A WIRED mostra como funciona a economia por trás de um domínio.
No exemplo apresentado, uma pessoa compra um endereço .app por US$ 27,99.
A distribuição desse pagamento é:
US$ 14,00: Google, operador do registro.
US$ 13,79: GoDaddy, registrador.
US$ 0,20: ICANN, taxa de transação.
A parcela recebida pelo registrador não representa necessariamente lucro líquido.
O mecanismo: o operador de uma extensão pode receber receitas de registros e renovações anuais.
Não precisa criar um novo aplicativo viral para monetizar. Precisa operar uma infraestrutura confiável, atrair registradores e manter uma base de domínios ativos.
Isso explica por que investidores aceitam desembolsar milhões antes mesmo de saber se determinada extensão terá demanda.
4. O caso .meow: como uma comunidade está tentando entrar nesse mercado
A dotMeow Foundation, sediada na Bélgica, pretende criar uma extensão que qualquer pessoa poderá registrar, mas cujos lucros de venda de domínios seriam destinados a pessoas e projetos LGBTQ+.
A estratégia combina identidade cultural, financiamento coletivo e receita recorrente.
Os dados apresentados pela reportagem incluem:
Aproximadamente US$ 137 mil: arrecadação no Kickstarter.
Quase 2.000 apoiadores: pessoas que contribuíram com a campanha.
40 países: alcance geográfico dos participantes.
US$ 55 mil: custo estimado de candidatura com apoio da ICANN.
A partir de US$ 32: contribuição com direito a voucher de domínio.
56 projetos: contemplados pelo programa de apoio da ICANN em 2026.
O detalhe comercial é que o Kickstarter não serviu apenas para arrecadar dinheiro.
Também demonstrou demanda antecipada aos registradores e criou uma base de possíveis clientes para futuras renovações.
A fundação pretende manter dados na União Europeia e reduzir a coleta de informações pessoais.
Isso também coloca a iniciativa no debate sobre privacidade, jurisdição e solicitações governamentais de dados.
5. O que a reportagem revela sobre poder e governança
Há três descobertas particularmente relevantes.
Primeira: o dinheiro também circula entre concorrentes.
Na rodada anterior, a ICANN arrecadou aproximadamente US$ 240 milhões em seus leilões.
Um grande intermediário privado movimentou cerca de US$ 650 milhões em leilões particulares, nos quais os perdedores frequentemente recebiam parte dos valores pagos pelo vencedor.
As regras de 2026 passaram a proibir esse tipo de resolução privada depois da divulgação das candidaturas.
Segunda: o controle de uma palavra pode custar uma fortuna.
A disputa por .web chegou a US$ 135 milhões, com financiamento da Verisign.
Mesmo assim, conflitos jurídicos atrasaram sua implantação por cerca de uma década.
Terceira: a governança é aberta, mas a influência não é igualmente distribuída.
A ICANN permite participação de governos, empresas, organizações civis e especialistas.
Entretanto, grandes companhias possuem mais recursos para participar continuamente de negociações técnicas e jurídicas.
6. Minha leitura dissidente: a verdadeira disputa é pela camada de identidade da internet
Aqui começa a interpretação estratégica, não uma descoberta factual adicional da WIRED.
A extensão .agent merece atenção especial porque introduz uma pergunta que pode se tornar central na economia de agentes de IA:
Quem estabelecerá os padrões pelos quais uma identidade digital será reconhecida como pertencente a um agente?
Uma extensão de domínio, sozinha, não autentica um agente de IA nem garante sua confiabilidade.
Mas pode funcionar como parte de uma infraestrutura de identificação, reputação e descoberta.
O mesmo raciocínio vale para .self, que associa o nome de domínio à soberania dos dados, e para .meow, que transforma um sinal cultural em uma possível fonte de financiamento comunitário.
A contradição é evidente: abrir novas possibilidades de identidade na internet também cria novos ativos comerciais que podem ser concentrados nas mãos de poucos operadores.
7. O que fazer com esses dados
Para quem trabalha com tecnologia, branding, conteúdo ou produtos digitais, eu acompanharia três movimentos: o resultado das candidaturas de .agent e .self, os modelos de precificação e renovação das novas extensões e a adoção real desses domínios por usuários e empresas.
Não trataria a compra especulativa de nomes como oportunidade garantida.
A própria reportagem mostra que centenas de extensões anteriores não alcançaram relevância comercial.
A tese que vale investigar é esta: durante anos, a corrida digital foi por audiência nas plataformas. Agora, uma parte do mercado disputa os nomes e os sistemas de identidade que podem continuar existindo independentemente dessas plataformas.
E a pergunta que a matéria deixa é mais importante do que .meow ou .fart:
Se a identidade digital se tornar um ativo cada vez mais valioso na era dos agentes de IA, quem ficará com a receita recorrente: quem cria a identidade, quem opera sua infraestrutura ou quem controla as regras de reconhecimento?
Essa é a história de poder e dinheiro por trás da reportagem.
8. Agora é com você: quem deveria controlar os nomes da internet?
A discussão não termina com as empresas que estão comprando extensões. Ela começa quando percebemos que a identidade digital também está se tornando um mercado.
Quero saber como você enxerga essa disputa. Responda nos comentários usando o número da pergunta e a letra da alternativa escolhida. Você também pode justificar sua resposta.
PERGUNTA 1
Você acha justo que uma empresa privada possa controlar uma extensão inteira da internet e cobrar pelo uso dos nomes registrados nela?
PERGUNTA 2
Se você pudesse criar uma extensão de domínio, qual escolheria?
PERGUNTA 3
Quem deveria ter mais poder sobre a identidade digital na era da IA?
PERGUNTA 4
Você pagaria mais por um domínio que representasse sua identidade ou seus valores?
PERGUNTA 5
O que mais preocupa você nessa nova corrida pelos domínios?
PERGUNTA 6
Complete a provocação:
Se eu pudesse ser dono de uma palavra da internet, escolheria...
Escreva sua resposta nos comentários.
Não precisa responder a todas. Escolha a pergunta que mais provocou sua curiosidade.
Porque talvez a próxima disputa da internet não seja sobre quem terá mais seguidores, mas sobre quem terá o direito de organizar os nomes, as identidades e os espaços digitais que todos os outros vão utilizar.
E aqui fica a última provocação:
Você está construindo sua identidade na internet ou apenas alugando um espaço dentro de sistemas que pertencem a outras pessoas?
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