A empresa que vendia robôs para substituir seguranças acabou de comprar uma empresa de seguranças humanos. Hoje 61% da receita dela vem de gente
Treze de vinte e um programas de robôs de segurança nos EUA já foram encerrados. A Knightscope tem US$ 273 milhões de dívida e “dúvida substancial” sobre sua continuidade. A história do que aconteceu vale mais do que qualquer relatório de tendências.
Existe um número neste texto que resolve o argumento inteiro, e ele está no balanço da própria empresa.
No primeiro semestre de 2026, a Knightscope, a maior fabricante americana de robôs de segurança, faturou US$ 15 milhões. Desse total, US$ 9,2 milhões vieram da Security Force, a divisão criada a partir da Event Risk LLC, uma empresa de segurança privada com seguranças humanos que a Knightscope comprou este ano.
Sessenta e um por cento da receita de uma empresa de robôs vem de pessoas.
Como uma tecnologia vendida durante dez anos como substituta do vigilante noturno terminou comprando uma empresa de vigilantes noturnos para sobreviver?
O levantamento que ninguém tinha feito
A Proof News, em parceria com a 404 Media, fez o trabalho entediante que a cobertura de tecnologia normalmente pula: foi atrás dos contratos.
As repórteres Rebecca Plevin e Varsha Bansal encontraram evidência de pelo menos 21 implantações de robôs de segurança desde 2015 nos Estados Unidos. Procuraram os contratantes, vasculharam noticiário e concluíram que pelo menos 13 desses programas foram encerrados.
A Knightscope tem o maior número de contratos do setor. E também a maior parte dos cancelamentos.
Não é uma tecnologia nova sendo julgada cedo demais. É uma década de implantações com maioria de desistências.
O robô do metrô de Nova York está juntando poeira numa loja vazia
Vale percorrer os casos, porque cada um ensina uma coisa diferente.
Nova York. O então prefeito Eric Adams colocou um robô da Knightscope no turno da noite na estação de Times Square. O programa acabou quando o piloto expirou em 2024. Os líderes da cidade não responderam por que não renovaram. Ao fim da missão, o aparelho estaria acumulando poeira numa loja desocupada.
Se você quer uma única imagem para descrever o ciclo de vida de um projeto de tecnologia comprado para render foto, é essa.
Dublin, Ohio. A cidade contratou um robô apelidado de DubBot para patrulhar um parque no centro. O piloto era de dois anos e foi desligado em maio, com menos de dez meses de operação. A porta-voz Robyn Gray disse que o equipamento “não atendeu plenamente às nossas necessidades operacionais”.
E aqui está o dado que interessa: o robô não identificou nenhum incidente criminal, não gerou nenhuma multa e não resultou em nenhuma prisão.
Zero. Em dez meses.
Aeroporto de San Antonio. Teste em 2024. Segundo a porta-voz Ana Flores, o robô teve dificuldades com leitura de crachás, com comunicação e com locomoção. O alarme de porta disparava e ele não respondia de forma eficiente. Depois de um mês de teste, o aeroporto decidiu não seguir com o contrato de locação anual de US$ 21 mil.
Vinte e um mil dólares por ano. Metade do salário de um segurança humano, que ganha em média US$ 40 mil anuais nos Estados Unidos. Nem por esse preço fechou.
Salem, Oregon. Três robôs Daxbot registravam placas e fotografavam carros irregulares num estacionamento do centro, compartilhando os dados com a polícia. O piloto de três meses terminou em abril, sem financiamento adicional. O sargento Trevor Morrison disse que as reclamações caíram desde o encerramento, mas não soube dizer se por causa dos dispositivos de moderação de tráfego ou por “resultados residuais das patrulhas”.
Ou seja: o indicador melhorou depois que o robô saiu, e ninguém sabe explicar. Isso é o que acontece quando se implanta um sistema sem medir a linha de base antes.
Tempe, Arizona. Um vídeo de um robô Daxbot de olhos azuis sendo enganado por um transeunte, a quem ordenava “retire-se do local”, foi parar no America’s Funniest Home Videos.
Adam Pioth, que publicou o vídeo, contou que visitava os robôs com frequência. Meses depois notou que eles não gritavam mais que ele estava invadindo. “Paravam, olhavam para mim e depois continuavam andando bem devagar.” Depois sumiram.
“Adeus, meu amigo, e obrigado por todas as boas lembranças”, ele escreveu no Instagram.
Perder para um sistema de vigilância é uma coisa. Ser adotado como mascote por quem você deveria expulsar é outra, e diz mais sobre a eficácia do produto do que qualquer estudo.
O histórico de incidentes, que também é curto e eloquente
Em 2016, um robô da Knightscope passou por cima do pé de uma criança de 16 meses num shopping do Vale do Silício. A empresa pediu desculpas pelo “acidente bizarro” e afirmou que o robô desviou e a criança correu para trás, batendo na máquina.
Em 2017, outro robô caiu numa fonte em Washington. A resposta oficial da empresa veio por tuíte: “ÚLTIMAS NOTÍCIAS: ouvi dizer que humanos podem dar um mergulho na água neste calor, mas robôs não. Me desculpem.”
Uma empresa de segurança respondendo a uma falha operacional com piada de rede social é, por si só, um dado sobre a seriedade com que o produto era tratado.
Por que isso era previsível, tecnicamente
Missy Cummings, professora de robótica na Universidade George Mason, deu a explicação mais precisa à Proof News.
Sistemas de decisão de IA funcionam bem em circunstâncias específicas. O desempenho pode ser “péssimo” assim que os algoritmos saem do conjunto de dados de treinamento.
E segurança pública é, por definição, o trabalho de lidar com o que não estava no conjunto de treinamento. É a profissão da exceção.
“Inteligência artificial e robôs para segurança têm um longo histórico problemático”, disse Cummings. “Não vejo isso mudando tão cedo.”
Sheila Sparks, cuja família administra uma empresa de segurança perto de Columbus há mais de uma década, disse a mesma coisa sem jargão: o toque humano é essencial para desescalar situações delicadas.
“Um robô não consegue fazer isso.”
E Steve Rosta, policial rodoviário aposentado e coproprietário de uma empresa de segurança em Ohio, reconhece que as câmeras funcionam como fator de dissuasão e podem capturar vídeo de crime, mas não imagina um futuro em que a máquina seja mais confiável que o guarda. “Sou da velha guarda. Estar em campo é sempre melhor.”
Repare que ninguém aqui está negando a tecnologia. Estão descrevendo a diferença entre registrar e intervir.
O robô fazia bem a parte mensurável do trabalho, que é gravar. E não fazia nada da parte que importa, que é decidir o que fazer com o que se viu.
O nome disso é teatro de segurança, e quem disse foi um professor de direito
Andrew Ferguson, professor da Universidade George Washington, deu à Proof a frase que organiza tudo.
Robôs de segurança oferecem “uma forma atraente de vigilância como serviço”, e suas câmeras visíveis podem inibir crime sem precisar pagar salário a um humano. Mas não está claro se previnem ou solucionam crimes melhor do que pessoas.
“Eles existem como uma manifestação física, um símbolo, por assim dizer, de que alguém está fazendo algo para combater o crime em potencial. Os robôs são uma forma de teatro de segurança, mais para efeito visual do que para resultados concretos.”
Manifestação física de que alguém está fazendo algo.
Guarde essa definição, porque ela não descreve só robôs. Ela descreve a maior parte dos projetos de IA corporativa que eu vi nos últimos três anos.
O robô do metrô de Times Square não foi comprado para reduzir crime. Foi comprado para que o prefeito pudesse ser fotografado ao lado dele anunciando que a cidade estava agindo. Ele cumpriu essa função com perfeição, e por isso o contrato durou exatamente o tempo do ciclo de notícia.
É IA de palco com rodinhas. E o palco, como sempre, foi pago com dinheiro de operação.
O balanço, que é onde a história fica realmente interessante
Agora os números da empresa, e eles são mais duros do que a reportagem original detalha.
A Knightscope acumula prejuízo líquido desde a fundação, em 2013, e carrega US$ 273 milhões de dívida.
No primeiro semestre de 2026, segundo o relatório trimestral: receita de US$ 15 milhões, contra US$ 5,7 milhões no mesmo período do ano anterior. Prejuízo líquido de US$ 24,4 milhões. Consumo de caixa de US$ 23,1 milhões em atividades operacionais.
O caixa fechou junho em US$ 8,2 milhões, contra US$ 20,6 milhões em dezembro de 2025.
E a frase que aparece no documento entregue à SEC: a administração afirma que precisa levantar capital adicional em até doze meses, e existe dúvida substancial sobre a capacidade da empresa de continuar operando.
A ação fechou a US$ 1,48.
Agora junte com a receita: dos US$ 15 milhões do semestre, US$ 9,2 milhões vieram da divisão de seguranças humanos comprada este ano.
A receita quase triplicou. E a maior parte do crescimento veio de contratar gente.
O que a aquisição realmente significa
O CEO William Santana Li recusou-se a responder perguntas sobre os programas desmantelados. Mandou uma frase por e-mail:
“A tecnologia não pode fazer tudo, e as pessoas também não, mas a combinação pode ser muito poderosa.”
É uma frase perfeitamente razoável. E é também uma reformulação bastante generosa do que aconteceu.
A tese original da empresa não era combinação. Era substituição, e o argumento comercial estava explícito no material de venda: o robô não tem família para voltar em casa, aceita trabalhar de madrugada e no fim de semana, e não recebe salário.
A tese nova é que robô mais gente é melhor que só robô.
Ninguém monta uma empresa de dez anos para chegar a essa conclusão.
E a empresa estima o mercado de segurança física em US$ 230 bilhões por ano. É o número que explica a manobra: não se compra uma empresa de vigilantes porque se acredita em vigilantes. Compra-se porque é assim que se entra numa carteira de clientes com receita recorrente, e porque o robô sozinho não abria essa porta.
O robô virou o software que acompanha o serviço. De protagonista a acessório, em um ciclo de aquisição.
E não é só a Knightscope
A Daxbot está se reposicionando para outro setor: avaliação automatizada de calçadas. A Proof identificou pelo menos nove cidades americanas que contrataram a empresa desde setembro para enviar robôs verificando conformidade com a lei de acessibilidade.
Isso é, na verdade, um caso de uso muito melhor. Calçada não reage, não discute, não precisa ser desescalada e não muda de lugar. É exatamente o tipo de tarefa em que robô ganha: ambiente estável, medição objetiva, nenhuma ambiguidade social.
A empresa não desistiu de robô. Desistiu de robô fazendo julgamento.
A Boston Dynamics, depois que a Hyundai assumiu o controle em 2021, migrou para humanoides de produção em massa para trabalhar em fábrica de automóvel. O Atlas entregou a bola ao árbitro num jogo da Copa em julho, cães robôs patrulharam dois estádios, e a estratégia provocou greves rotativas nas montadoras da Hyundai na Coreia.
Aqui vale a distinção honesta: a empresa não fugiu de segurança por incompetência técnica. Foi atrás de um mercado com margem melhor e ambiente controlado. Chão de fábrica é previsível. Calçada de cidade não é.
Em 2021, o Departamento de Polícia de Nova York encerrou o aluguel de um cão robô da Boston Dynamics e o devolveu após reação pública. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez chamou o equipamento de “drones terrestres de vigilância” sendo “implantados para testes em comunidades de baixa renda e de minorias étnicas”.
A parte que sobrevive ao fracasso comercial
Aqui está o ponto que eu não quero que se perca no meio da piada.
Os robôs fracassaram como segurança. Não fracassaram como vigilância.
Brian Hofer, diretor executivo da organização de privacidade Secure Justice, resumiu: “O que isso realmente está fazendo é construir um sistema de vigilância em massa do qual é impossível se esconder. Não é uma sociedade na qual eu queira viver.”
Um robô que não previne crime nenhum ainda coleta placas de veículo, ainda grava vídeo, ainda pode receber reconhecimento facial numa atualização de firmware, e ainda compartilha tudo isso com a polícia, como fazia o Daxbot em Salem.
O contrato pode ser cancelado. Os dados coletados durante os dez meses de piloto não são devolvidos.
E existe um detalhe regulatório novo que vai empurrar essa história para a frente: a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos proibiu a importação de robôs móveis de fabricação estrangeira, justificando a medida como imperativo de segurança nacional dada a capacidade de vigilância dessas máquinas.
Leia com atenção: o Estado americano acaba de reconhecer oficialmente que esses aparelhos são plataformas de vigilância. Não usou esse reconhecimento para restringir o uso deles. Usou para restringir quem pode vendê-los.
O problema nunca foi a vigilância. Foi a nacionalidade de quem vigia.
O recorte brasileiro
No Brasil, a conversa sobre robô de segurança ainda é incipiente, mas a lógica de compra é idêntica e já opera em outro formato.
Shopping, condomínio de luxo e prefeitura brasileira compram tecnologia de segurança pela mesma razão que Nova York comprou o robô do metrô: para exibir que estão fazendo algo. Câmera com reconhecimento facial em estação de metrô e em estádio é a versão local do mesmo produto, com o mesmo argumento de venda e a mesma ausência de linha de base medida antes da instalação.
E aqui a assimetria pesa mais que nos Estados Unidos, porque lá pelo menos existe imprensa investigativa perguntando quantas prisões o equipamento gerou. A pergunta “quantas prisões” é o teste mais simples do mundo e quase nunca é feita antes da renovação do contrato.
A LGPD trata biometria como dado sensível. Não existe, no país, exigência de avaliação de impacto publicada antes de instalar sistema de vigilância automatizada em espaço público, nem obrigação de divulgar taxa de erro.
Se você é gestor público ou de facilities e está avaliando esse tipo de compra, existem três perguntas que resolvem a decisão antes de qualquer demonstração comercial:
Qual é o número hoje? Ocorrências por mês, medidas antes, com metodologia escrita. Sem linha de base, qualquer resultado será indemonstrável, e é exatamente por isso que fornecedor nenhum sugere medir antes.
Qual é o critério de encerramento? Escrito no contrato, com data e indicador. Dublin descobriu em dez meses o que estava contratado para dois anos, e só porque alguém teve coragem de olhar.
O que acontece com os dados quando o contrato acabar? Essa é a única cláusula que continua valendo depois que o robô voltar para a caixa.
O fecho
A promessa era substituir o vigilante noturno por uma máquina que não tem família esperando em casa. O resultado, dez anos e US$ 273 milhões de dívida depois, é uma empresa de robôs que comprou uma empresa de vigilantes e hoje tira 61% da receita justamente deles.
O mercado chama isso de pivô estratégico. O balanço chama de confissão. E fica a lição que transfere para qualquer projeto de IA em qualquer setor: o robô era ótimo em fazer a parte do trabalho que dava para medir e péssimo em fazer a parte que decidia o resultado. Gravar é fácil. Julgar não é.
Quem comprou olhou para a demonstração e não perguntou quantas prisões.Foi por isso que o teatro durou exatamente até a primeira vez que alguém pediu o número.
Três perguntas antes de você fechar a aba.
Na última tecnologia que a sua empresa comprou para resolver um problema, alguém mediu o problema antes de comprar? Se não mediu, como você vai saber se funcionou?
Existe um critério de encerramento escrito em algum contrato de tecnologia que você assinou este ano, com data e indicador?
E quando um projeto de IA é cancelado na sua empresa, o que acontece com os dados que ele coletou enquanto estava rodando?
Se você chegou até aqui, você é do tipo que quer o bastidor, não o palco.
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A história oficial é sempre a versão que sobreviveu ao comunicado de imprensa.
Fontes: Relatório trimestral da Knightscope à SEC · Knightscope, sobre a aquisição da Event Risk · Bureau of Labor Statistics, salário de seguranças · The New York Times, sobre o robô do metrô · The New York Times, sobre o cão robô do NYPD · FCC, proibição de importação 404 media


